Um amor de adolescente na voz de um garoto


 

Andréa foi um chocolate meio amargo na minha vida e que virou chocolate ao leite depois que eu entrei no colegial.

Eu odiava Andréa porque dentre mil coisas que me falava, quando era mais nova, quinhentas era sobre os contos do vampiro, duzentas sobre o tal do bruxinho que estudava no castelo e duzentas e noventa e oito era fofoca, boy band e maquiagem, uma era “eu amo você Duda” e, a pior de todas, era a piada de pontinhos. Ela era diferentemente insuportável, mas insistia em me perturbar. Até mesmo quando eu estava no futebol de meia com os caras durante o intervalo, ela surgia no meio da demarcação de campo, do nada, e gritava:

– Duda, tenho uma coisa para te mostrar, vem aqui.

Eu odiava ser chamado de Duda, os caras me zoavam porque parecia apelido de mulher. Teve um dia que mandei a Andréa não falar mais comigo, isso a chateou, nós éramos vizinhos e tínhamos nos criado juntos desde os nove anos. Fiquei com dó, mas os caras já estavam zombando dizendo que eu era namorado dela. Não namoraria aquela abobalhada, a menina mais chata que conheço.

Andréa mudou de classe no último ano, então eu não sabia mais nada sobre ela, nem diferenciava mais quem era ela no meio daquele monte de garotas, alem do mais, quando comecei a beijar muitas delas, todas me pareciam iguais.

Mal a encontrava pela vizinhança até cair na mesma sala dela no colegial. A mudança era incrível, Andréa estava com o jeito da irmã mais velha do meu amigo com quem eu sonhei todas as noites do ano passado. Ela não falou comigo, tão pouco me viu, então eu fui até a mesa dela onde estava com as amigas. Abri a boca, mas ela não me deixou respirar para cumprimentá-la. Disparou:

– Oi Duda! – aqueles olhos brilhantes exclamaram alguma coisa que me deixou sem reação.

– Oi. – respondi.

Ela falou sem parar, como se ainda fosse aquela chata que me tirava do futebol para contar uma piada nova.

Eu não entendia nada, estava vidrado naqueles olhos. A professora entrou na sala e eu corri para o meu lugar. Encarei a Andréa durante a aula inteira esperando uma deixa para poder falar com ela de novo. No intervalo daquele dia, fui eu quem a tirou do convívio das amigas:

– Andréa, como passou as férias?

– Ah! Foi bem legal.

 

Tirada do comercial da Vivo "Eduardo e Monica"

Circulei com ela pelo pátio. Mas era loucura, ela continuava com a mania de falar sem parar. Até que soltei um “cale a boca” fazendo-a  arregalar os olhos de espanto. Até hoje não acredito como eu pude dizer uma coisa dessas.

Ela caiu na gargalhada:

– É, Duda, eu não perdi aquela velha mania de te irritar com minha faladeira.

– Espero que tenha esquecido das piadas dos pontinhos.

– Ah, eu fazia isso, não é?

Parei. Está bem, eu não conseguiria ficar mais um minuto na mesma sala, no convívio dela, se não pudesse tocá-la. Era loucura, mas eu precisava arriscar.

– Eu não tenho muitas novidades agora, o ano acabou de começar. – ia ela tagarelar de novo.

Eu podia bater nela, Andréa era burra  de não perceber, ou se fazia. Estava na cara que eu queria ela, queria beijá-la, então recostei no muro para fazer com que parássemos de caminhar. Percebi que ela iria retomar o falatório e a interrompi:

– Andréa, você ainda me ama como dizia antes?

– Quanto tempo nós, garotas, devemos esperar para um cara amadurecer e perceber essas coisas? Pensei que só fosse me perguntar isso na faculdade.

Eu acho que ela ouviu meu coração pela pequena distância que estávamos e, acredite, foi ela que me beijou. Aquela abobalhada que eu odiava quando era mais novo.

Tempos depois, concluiríamos a faculdade, comemoraríamos a formatura junto com os amigos no nosso restaurante favorito e eu a surpreenderia pedindo-a em casamento.

Aline

 

“Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração e quem irá dizer que não existe razão?” – Legião Urbana.

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